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No Sorriso Louco das Mães   Leave a comment

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

Texto: Herberto Helder, in ‘Excerto do poema «Fonte», publicado em A Colher na Boca, 1961’
Foto: João Carvalho (6 de Maio de 2018)

 

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Posted 8 de Maio de 2018 by João Carvalho in Foto, Pensamentos

Saudade   Leave a comment

Os lugares onde fui criança, onde cresci, ou mais tarde, onde a minha vida se decidiu, existem agora, lá longe, indiferentes talvez aos pensamentos que aqui desenvolvo sobre eles. Ao imaginá-los, com a devida diferença horária, deambulo por eles sem corpo, sou apenas olhos, alma, ignorado pelas paredes, pelas ruas, que prosseguem a sua existência sem mim.

Foto: João Carvalho

Texto: José Luís Peixoto, in ‘Up’ (Revista)

P.S: Em jeito de comemoração do 8º Aniversário deste blogue, deixo-vos este “post”. Bem haja a todos aqueles que se interessam por este blogue e por tudo o que nele vou colocando. Obrigado pelas 52 mil visitas ao longo destes oito anos.

Posted 31 de Janeiro de 2018 by João Carvalho in Pensamentos

Confidência   1 comment

“Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem …”

Texto: Mia Couto

Foto: João Carvalho, 2015

Posted 24 de Outubro de 2017 by João Carvalho in Foto, Pensamentos

Na imensidão do sonho a poesia da paisagem   Leave a comment

Posted 17 de Outubro de 2017 by João Carvalho in Pensamentos

A tua construção   Leave a comment

Abres os braços
Cerras os dedos
Destróis
E arruínas os meus medos
É de aço o teu peito
É de veludo o meu jeito
Muralha de pedra
Ao jeito da mão
Tijolo de mel
No cantinho do coração.

Texto: Raul Cordeiro

Foto: João Carvalho

Posted 25 de Agosto de 2017 by João Carvalho in Pensamentos

…cada um que passou por nós…   Leave a comment

Que estejamos presentes em memórias alheias.
Que alguém já distante lembre do nosso sorriso e se sinta acolhido.
Que o nosso bem faça bem ao outro.
Que sejamos a saudade batendo no peito de uma velha amizade.
Que sejamos o amor que alguém nunca esqueceu.
Que sejamos um alguém que sorriu na rua e o desconhecido encantou-se.
Que sejamos, hoje e sempre, uma coisa boa que mora dentro de cada um que passou por nós.

Texto: Camila Costa
Foto: João Carvalho (Algarve)

 

Posted 26 de Julho de 2017 by João Carvalho in Pensamentos

Largos campos são o nosso destino   Leave a comment

Adormecidos nos largos campos do nosso destino
Um mundo guardado por silenciosas asas que sussurram
E num rasgo de luz dourada pelo divino
Protege a nossa impossibilidade perfeita
E nos horizontes que brevemente murmuram
Um esplendor fechado investiga os nossos olhos sonhadores
Esperamos que a nossa fantasia seja a eleita
Sonhamos nossos esplendores
Carregados de idades orgulhosas e fados magníficos
A beleza da nossa alma escura é amorosa
Somos os herdeiros de uma largura infinita
Reflectida na flor e nos espinhos de uma rosa
Mas estreitada pela nossa desdita
O impossível é a insinuação do que será
A mais pura mistura da verdade
Nossa vida é e será sempre
A porta da nossa imortalidade.

 

Texto: Raul Cordeiro

Foto: João Carvalho (Marvão, 2015)

Posted 25 de Julho de 2017 by João Carvalho in Pensamentos

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