A vida   Leave a comment

Procurando explicações para mim próprio, olho para o passado como se fosse a casa dos meus pais. Aprendi a conhecer cada pormenor das suas paredes, a sua textura, acreditei naquela casa como só um menino é capaz, depois o tempo passou. Aqui mesmo, ou em todos os lugares onde já estive sem me lembrar dela, a casa continuou sempre lá. Está lá agora, com tempo a passar lento nas suas divisões mal iluminadas, as mesmas onde fui criança, o banco onde me sentava ao lume em dias como este, o corredor que a minha mãe atravessava cheia de pressa, o sofá onde o meu pai se sentava já doente, a cama onde eu me deitava a imaginar o adulto que seria/sou, o canto da cozinha onde nesta época do ano decorava a árvore de Natal. E foi assim em todos os momentos. Depois de sair de lá, noutras casas, sem me lembrar, compenetrado em apaixonar-me ou em desiludir-me, a casa estava sempre lá, com tempo a passar nas suas divisões vazias. Enquanto eu tinha filhos, a casa estava lá; enquanto eu publicava livros, a casa estava lá; enquanto eu me preocupava com insignificâncias que já esqueci, a casa estava lá.

Texto: José Luís Peixoto

Foto: João Carvalho (Portalegre, 2015)

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Posted 18 de Agosto de 2015 by João Carvalho in Foto, Pensamentos

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