Archive for Agosto 2015

Setembro   Leave a comment

 

Desde que me vejo e me lembro
Abrir os olhos ao relento
Que as coisas boas e más
Me acontecem em Setembro
Assim como se o calendário parasse
E o coração disparasse
Célere em desengano
Esperando o fim do ano
Para que voltasse de vez
A acontecer tudo
Outra vez

Texto: Raul Cordeiro

Foto: João Carvalho (Muxia, Abril de 2012)

Posted 31 de Agosto de 2015 by João Carvalho in Foto, Pensamentos

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Em Busca da Beleza   Leave a comment

Soam vãos, dolorido epicurista,
Os versos teus, que a minha dor despreza;
Já tive a alma sem descrença presa
Desse teu sonho, que perturba a vista.

Da Perfeição segui em vã conquista,
Mas vi depressa, já sem a alma acesa,
Que a própria idéia em nós dessa beleza
Um infinito de nós mesmos dista.

Nem à nossa alma definir podemos
A Perfeição em cuja estrada a vida,
Achando-a intérmina, a chorar perdemos.

O mar tem fim, o céu talvez o tenha,
Mas não a ânsia da Coisa indefinida
Que o ser indefinida faz tamanha.

Texto: Fernando Pessoa
Foto: João Carvalho

Posted 30 de Agosto de 2015 by João Carvalho in Foto, Pensamentos

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Momento   2 comments

 

Pedes-me um momento
Agarras as palavras
Escondes-te no tempo
Porque o tempo tem asas
Levas a cidade
Solta me o cabelo
Perdes-te comigo
Porque o mundo é o momento

Texto: Pedro Abrunhosa

Foto: João Carvalho

Posted 27 de Agosto de 2015 by João Carvalho in Foto, Pensamentos

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Amo-te, irremediavelmente   Leave a comment

A vida dorme, coberta pelo manto da noite, retempera forças para mais uma batalha. Jazemos, mortais, depois do clímax, rendidos da luta. Pela janela vejo os contornos da cidade, aconchegada em si mesma (como tu, em mim, longe de tudo, escondidos).

Amas-me?

Quando volto a ver-te? Quero estar contigo, fazes-me falta.

O jantar foi soberbo, estava ávido de ti. Despertas-me os sentidos, perco o controlo. Mãos ao ar, rendo-me, sou teu.

Ditaste as regras, aceitei o jogo, pensei ser capaz de as mudar. Enganei-me. Sou refém delas, à tua mercê.

Bebi demais, o vinho era excelente (menos que a companhia, mais que a última garrafa que partilhamos). Sinto-me ébrio do teu corpo, em êxtase. Tu dormes profundamente, descansas em mim (de nós).

Adorei estar contigo. Foste ótimo.

Somos sempre, quando acontece. Quero mais; quero-te sempre.

É arriscado. Não pode ser.

Claro que pode. Não consigo viver sem ti. Vamos começar do zero, juntos.

Afago os cabelos sedosos e longos que se espraiam sobre mim e sinto a tua respiração serena; estás em paz. Queria poder entrar nos teus sonhos e viver neles (contigo).

Se tu quisesses (…)

Preferia que não acordasses, neles pertences-me (és só minha). Sinto ciúmes do mundo, em ti.

Sou feliz (por momentos), para mergulhar numa tristeza profunda (quase sempre).

Não vás, fica. Não voltes, foge (para mim). Vamos ser felizes, prometo. Vivo do nosso amor, sem ele definho.

O relógio toca, implacável, sentenciando-nos ao desfecho costumeiro. São quatro da manhã. O coração acelera e a ansiedade invade-me.

Quando volto a ver-te?

A dúvida habitual tolda-te o olhar. Debruças-te sobre a cama e os lábios fundem-se, pela última vez; sabe a incerteza. Olhas para trás antes de sair: sou um peão no teu xadrez.

Morro em mim (mais do que em ti, há pouco).

Amas-me? Amo-te, irremediavelmente. 

Texto: Nuno Franco Pires

Foto: João Carvalho (Castelo de Elvas, Elvas, 2015)

Posted 24 de Agosto de 2015 by João Carvalho in Foto, Pensamentos

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“Fim da linha”   Leave a comment

Segue-se o silêncio, de vagões fantasmas e janelas sem gente, desprovidas de olhares e de histórias.

Deixo-me ficar, de pé, junto à linha do comboio, esperando ouvir o som enérgico dos teus passos, regressando, à medida que o sol se põe na linha do horizonte, pintando-me de um alaranjado que me incendeia. A estação está vazia, amorfa, como eu; despido de ti.

Um bando de pássaros esvoaça ruidosamente sobre a minha cabeça, desenhando formas desconexas que querem dar-me notícias tuas.

Perdi-te; ou nunca te tive.

Fecho os olhos, inspiro profundamente, sinto o perfume que inebria os meus sentidos e me tolda a mente quando (nos teus braços nus) descanso da vida e me canso contigo, em uníssono. À minha frente só os carris enferrujados de uma linha que afunila ao afastar-se e não sei onde começa (nem onde termina). Onde estás?

Olho em frente e procuro naquele farol de luz o brilho do olhar, que me enfeitiça ao fitar-me, e me ilumina na escuridão do caminho; sem ele não enxergo, sou mais um cego. Onde estás?

Preciso do toque dos teus lábios (finos), nos meus (quentes); quero humedecer neles e despertar para ti. Tudo ao redor parece mergulhar num silêncio atroz, indiferente ao bulício que faz estremecer o meu peito. Onde estás?

Não sinto o teu abraço quente, quero aninhar-me nele como em nenhum outro, como se o moldassem para mim (não sei quem), e me serena quando algum furacão me arrasta; poderia viver nele para sempre, bafejado pela brisa das tuas palavras sussurradas em surdina (longe do mundo), junto ao meu ouvido. Onde estás?

Ouço o apito, estridente, do comboio: vai partir. Espreito mais uma vez para o seu interior, percorro com o olhar todas as carruagens: está vazio. Dou um passo em frente; a vida não faz sentido.

Texto: Nuno Franco Pires

Foto: João Carvalho (Sta Eulália, Portugal, 2015)

Posted 19 de Agosto de 2015 by João Carvalho in Foto, Pensamentos

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19 de Agosto, Dia Mundial da Fotografia   Leave a comment

19 de Agosto, Dia Mundial da Fotografia

“Deus quer, o Homem sonha, a Obra nasce”, Fernando Pessoa

Alte, Portugal, 2015

Posted 19 de Agosto de 2015 by João Carvalho in Foto, Pensamentos

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A vida   Leave a comment

Procurando explicações para mim próprio, olho para o passado como se fosse a casa dos meus pais. Aprendi a conhecer cada pormenor das suas paredes, a sua textura, acreditei naquela casa como só um menino é capaz, depois o tempo passou. Aqui mesmo, ou em todos os lugares onde já estive sem me lembrar dela, a casa continuou sempre lá. Está lá agora, com tempo a passar lento nas suas divisões mal iluminadas, as mesmas onde fui criança, o banco onde me sentava ao lume em dias como este, o corredor que a minha mãe atravessava cheia de pressa, o sofá onde o meu pai se sentava já doente, a cama onde eu me deitava a imaginar o adulto que seria/sou, o canto da cozinha onde nesta época do ano decorava a árvore de Natal. E foi assim em todos os momentos. Depois de sair de lá, noutras casas, sem me lembrar, compenetrado em apaixonar-me ou em desiludir-me, a casa estava sempre lá, com tempo a passar nas suas divisões vazias. Enquanto eu tinha filhos, a casa estava lá; enquanto eu publicava livros, a casa estava lá; enquanto eu me preocupava com insignificâncias que já esqueci, a casa estava lá.

Texto: José Luís Peixoto

Foto: João Carvalho (Portalegre, 2015)

Posted 18 de Agosto de 2015 by João Carvalho in Foto, Pensamentos

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