LUSCO-FUSCO   Leave a comment

SONY DSCA escuridão dilui-se devagar na claridade. A luz vencerá, mas essa certeza só chegará mais tarde. Agora, este momento é uma dúvida. A luz e a escuridão dividem-se em forças iguais e o seu duelo parece renhido, apesar de se saber que, todos os dias, a esta hora, o sol começa a levantar-se no mar. Mais tarde, depois de um dia inteiro, será também sobre o mar que tombará. Em volta, apenas o mar, o oceano: tudo existe rodeado pela circunferência desse horizonte.

Os homens da traineira sabem o que têm a fazer. Em terra, ainda dormem aqueles que os esperam. No sono, esses rostos são indefesos e inocentes. Mas não sobra tempo para recordá-los agora, há trabalho por fazer, há redes a precisarem de cuidado. O céu aproxima-se e afasta-se com o balanço do mar. Na distância, estende-se uma superfície de nuvens irregulares que se desnivela com esse ritmo. Os homens da traineira acompanham os humores do mar, reconhecem-nos. Às vezes, sentem que o mar os transporta no ombro, como amigos de tamanhos diferentes; outras vezes, suportam-lhes a ira, escapam-se debaixo dos seus golpes. Nesses dias, é como se o mar quisesse derrotá-los. Gigante, congrega todos os elementos sob o seu poder. O céu e a tempestade obedecem-lhe.

As redes submersas seguram o peso da expectativa. O frio desta hora enrijece as faces dos homens da traineira, barba mal feita, olhos secretos. Debaixo da roupa, rente à pele, apenas o frio húmido, como se escorresse uma camada muito fina da água que se acumula em poças no convés, que se respira, que salga o ar e as palavras que os homens não dizem.

Em terra, ainda dormem aqueles que os esperam. Há momentos em que é preciso lembrá-los, quando faz falta toda a força que se conseguir ter: os filhos que hão-de ser despertados para ir à escola, a casa inteira despertada pela mulher que acorda sozinha na cama de casal, sabendo o que tem de fazer, e que, depois dessa saga, tem de ir para o emprego, aqui, ali ou lá longe, transportada por autocarros, comboios ou silêncio.

Os homens da traineira aceitam esta ondulação mansa, julho de paz, como aceitaram a raiva de janeiro. Apesar do sofrimento, pensam muitas vezes no que seria o mar sem eles, únicos dispostos a suportá-lo, a impedir que se destrua a si próprio. Aleatório, violento e, no entanto, capaz também de ternura desajeitada, capaz também de generosidade que nunca termina, puxada em redes cheias durante anos e anos, vidas inteiras.

Por isso, os homens da traineira sabem que não são melhores do que o mar. Uns e outros têm de lidar com o seu próprio medo. É esse o verdadeiro confronto. Os homens da traineira e o mar partilham a mesma natureza. Só se distinguem por necessidade analítica, por fraqueza do mundo. Na verdade, há muitos momentos em que o mar é os homens da traineira, assim como há muitos momentos em que os homens da traineira são o mar. Fingindo uma espécie de luta, seguem paralelos, sobrepõem-se e atravessam-se, como a escuridão e a claridade neste momento, como um lusco-fusco permanente, perpétuo.

Texto:  José Luís Peixoto

Foto: João Carvalho

Anúncios

Posted 12 de Novembro de 2014 by João Carvalho in Foto, Pensamentos

Tagged with ,

Obrigado pelo seu comentário ! João Carvalho

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: