Os Amigos Nunca São para as Ocasiões   1 comment

10480181_250337801831236_8657486142338449227_nOs amigos nunca são para as ocasiões. São para sempre. A ideia utilitária da amizade, como entreajuda, pronto-socorro mútuo, troca de favores, depósito de confiança, sociedade de desabafos, mete nojo. A amizade é puro prazer. Não se pode contaminar com favores e ajudas, leia-se dívidas. Pede-se, dá-se, recebe-se, esquece-se e não se fala mais nisso.

A decadência da amizade entre nós deve-se à instrumentalização que tem vindo a sofrer. Transformou-se numa espécie de maçonaria, uma central de cunhas, palavrinhas, cumplicidades e compadrios. É por isso que as amizades se fazem e desfazem como se fossem laços políticos ou comerciais. Se alguém «falta» ou «não corresponde», se não cumpre as obrigações contratuais, é logo condenado como «mau» amigo e sumariamente proscrito. Está tudo doido. Só uma miséria destas obriga a dizer o óbvio: os amigos são as pessoas de que nós gostamos e com quem estamos de vez em quando. Podemos nem sequer darmo-nos muito, ou bem, com elas. Ou gostar mais delas do que elas de nós. Não interessa. A amizade é um gosto egoísta, ou inevitabilidade, o caminho de um coração em roda-livre.

Os amigos têm de ser inúteis. Isto é, bastarem só por existir e, maravilhosamente, sobrarem-nos na alma só por quem e como são. O porquê, o onde e o quando não interessam. A amizade não tem ponto de partida, nem percurso, nem objectivo. É impossível lembrarmo-nos de como é que nos tornámos amigos de alguém ou pensarmos no futuro que vamos ter.
A glória da amizade é ser apenas presente. É por isso que dura para sempre; porque não contém expectativas nem planos nem ansiedade.

Texto: Miguel Esteves Cardoso, in ‘Explicações de Português’

Foto: Miguel Carvalho

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Posted 3 de Julho de 2014 by João Carvalho in Foto, Pensamentos

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One response to “Os Amigos Nunca São para as Ocasiões

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  1. A geografia da amizade (com um abraço especial)

    Era alto, bem alto o teu promontório
    E do alto te puseste a mirar
    E atiraste pedras a quem passava
    E partiste cabeças
    E calaste bocas
    E provocaste mágoas loucas
    Quebraste com as pedras,
    a pontaria e a agilidade
    Alguns pedaços
    Da geografia da tua amizade
    E se com as tuas lágrimas pedes desculpa
    Não peças
    Que das feridas que carrego
    É tua a culpa porque
    Quebraste com as pedras,
    a pontaria e a agilidade
    E quebraste também
    a geografia da tua amizade

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